'Você' é pronome de tratamento ou segunda pessoa do caso reto?


Na descrição gramatical contemporânea, você é geralmente classificado como pronome pessoal do caso reto, embora tenha uma origem histórica diferente e mantenha propriedades particulares.


1. Você é pronome pessoal do caso reto.

Em uma frase como:

Você acredita em políticos?

você é pronome pessoal do caso reto, porque exerce a função de sujeito da oração:

Você → sujeito


Nas gramáticas atuais, portanto, é comum encontrar você integrado ao quadro dos pronomes pessoais, assim também como o tu, ainda que sua origem seja a expressão de tratamento Vossa Mercê.


2. Mas você não é originalmente uma segunda pessoa na concordância

Você designa o interlocutor, portanto refere-se à segunda pessoa do discurso:

eu → quem fala;

você → com quem se fala;

ele → de quem se fala.


Entretanto, você desencadeia normalmente concordância verbal de terceira pessoa:

Você é muito inteligente.

Você estuda bastante.

Você gosta de literatura.


Não dizemos, na norma-padrão:

Você estudas bastante.


Assim, há uma distinção importante:

Você é segunda pessoa do discurso + terceira pessoa gramatical/concordância.


3. E por que isso acontece?

Porque você surgiu historicamente como uma forma de tratamento. A expressão Vossa Mercê era empregada para se dirigir ao interlocutor, mas apresentava concordância na terceira pessoa:

Vossa Mercê quer alguma coisa?


Com a transformação histórica:

Vossa Mercê → vossemecê → vosmecê → você

manteve-se esse padrão de concordância:

Você quer alguma coisa?


É justamente por isso que você ocupa uma posição peculiar no sistema pronominal do português brasileiro.


4. Então você é pronome de tratamento ou pronome pessoal?

As duas classificações aparecem, dependendo da abordagem gramatical. 

Tradicionalmente, você costuma ser apresentado como pronome de tratamento, sobretudo porque sua origem está em uma fórmula de tratamento e porque exige concordância de terceira pessoa.

Entretanto, descrições gramaticais contemporâneas frequentemente o tratam como pronome pessoal, particularmente quando analisam o sistema pronominal efetivamente usado no português brasileiro.

Isso ocorre porque você funciona sintaticamente como um pronome pessoal:

Você chegou cedo.

Eu encontrei você ontem.

Isto é para você.


Observe que ele pode ocupar diferentes funções sintáticas:

Você chegou. → sujeito

Encontrei você. → objeto direto

Falei com você. → complemento preposicionado


Portanto, não é adequado dizer simplesmente que você deixou de ser pronome de tratamento e passou a ser pronome pessoal. A classificação depende do modelo gramatical adotado.


5. Um detalhe importante para o ensino

Há ainda uma distinção que costuma causar confusão:


Você acredita em políticos?

Nesse caso, você é pronome pessoal do caso reto e exerce a função de sujeito.


Já em:

Eu encontrei você ontem.

você continua sendo pronome pessoal, mas agora está na posição correspondente ao caso oblíquo, exercendo função de objeto direto.


Isso mostra que caso reto não significa pronome pessoal

Caso reto diz respeito principalmente à função sintática típica de sujeito, enquanto pronome pessoal diz respeito à classe gramatical.