A metáfora ontológica

O português como língua viva, autônoma ─ e arbitrária




Há um fenômeno que funde o conceito de abstrato e concreto por meio da metáfora.


Veja o exemplo:

O amor é um café solúvel servido na tarde de domingo.

[amor] é substantivo abstrato;

[café solúvel] é substantivo concreto.


Logo, a ideia de que amor (conceito abstrato) é café solúvel (conceito concreto) se configura como uma metáfora ontológica.


Metáfora sinestésica (em certos casos)

Quando, além da concretização, há mistura de campos sensoriais (visão, paladar, tato, audição etc.), a figura também pode ser chamada de sinestesia.

Por exemplo: “a saudade tem cheiro de roupa guardada.”

Aqui o abstrato (saudade) é concretizado por um dado sensorial (cheiro).


3. Metáfora encarnada/concretização simbólica

Na crítica literária e nos estudos estilísticos, especialmente em poetas como Drummond ou Neruda, fala-se em “concretização simbólica” ou “encarnação do abstrato”, processo pelo qual um sentimento, valor ou ideia assume forma física ou imagética.

Exemplo:

“A esperança é uma coisa com penas” (Emily Dickinson).

Aqui há uma concretização simbólica da esperança como um pássaro.


Catachrese poética

Em alguns casos, quando a metáfora se torna mais ousada ou “imprópria” (no sentido de extrapolar os limites da analogia comum), ela pode ser descrita como catachrese, ou seja, uma metáfora de necessidade, quando o abstrato só pode ser dito pela via do concreto, pela falta de um termo literal.


Exemplo:

"O bico de sua pena rasgava o silêncio da madrugada."

Neste caso, o termo "bico" é originalmente usado para designar a estrutura anatômica das aves (concreto). Por extensão, e por necessidade, usamos "bico" para designar a ponta de um objeto (como o "bico da chaleira" ou o "bico da caneta"). No poema, essa transferência ganha um tom poético: a ponta da pena (caneta) não apenas escreve, mas "rasga" o silêncio, criando uma imagem visual e tátil para um fenômeno abstrato (o fim do silêncio).


Metonímia conceitual (dependendo do caso)

Às vezes, não há apenas substituição, mas associação direta entre o abstrato e o concreto, o que pode envolver uma forma de metonímia conceitual, um tipo de contiguidade semântica, mais do que comparação.


"Ele perdeu a cabeça durante a discussão."

Aqui, "perder a cabeça" (concreto) está em contiguidade direta com o conceito abstrato de "perder a razão" ou "perder a calma". A cabeça é o órgão associado ao pensamento. Não há comparação (não se diz que a razão é uma cabeça), mas sim uma conexão ontológica: o abstrato (razão/sanidade) é expresso através do seu correlato físico concreto (cabeça).